sábado, 2 de novembro de 2013

A ORIGEM DO BRIGADEIRO.

Polissemia
Apostemos, portanto, por falta de evidências numa homonímia, na solução mais óbvia, a da polissemia. Uma história em particular explica a denominação, circula há décadas e foi veiculada juntamente com a propaganda de marcas de leite condensado, as quais possivelmente também foram as responsáveis pela ampla divulgação nacional e internacional do doce e de sua denominação.

Diz-se que o doce é uma homenagem ao patrono das Forças Aé­reas Brasileiras, o brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981), que se candidatara em 1946 e em 1950 à presidência da República pelo partido da União Democrática Nacional e teria distribuído doces em sua campanha. O próprio doce (ou seria apenas sua denominação?) teria irradiado da cidade de São Paulo já em 1946 (outros apontam o Rio de Janeiro; outros, algum lugar indefinido de Minas Gerais). Não é claro se o doce já existia antes (se sim, como se chamava: "bolinhas de chocolate", "negrinho"?) ou se, de fato, foi inventado naquela ocasião, com o nome atual e tudo.

São estranhas as conexões entre o candidato e o nome do doce. Obviamente, o que nos ocorre é que seja uma espécie de redução de "doce da campanha do brigadeiro". Outros já acham que os doces se associaram ao brigadeiro porque eram seus prediletos. Mas há explicações bem bizarras que circulam pela boataria pseudoetimológica da internet.

História
Algumas delas associam o fato de ele ter sido um homem "alto, bonito, de olhos azuis e solteiro" com atributos do doce ("delícia", "gostoso" ou mesmo o verbo "comer"), e, daí, o étimo seria atingível por divagações de cunho pseudofreudiano; outras lembram que os doces têm formato esférico, como testículos; outras, ainda, por antítese, lembram que a receita do doce não leva ovos.

Focam, como base desses dois pseudoétimos, uma história, algo lendária, que afirma ter sido o mesmo brigadeiro ferido nos testículos em 1922, durante a revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Se é verdade o incidente, tudo indica que essas explicações sejam a posteriori e, portanto, inúteis à Etimologia. Foi na década de 80 que essas histórias começaram a pipocar, como provam textos como Doces brasileiros: as maravilhas do Leite Moça, de 1989 (agradeço a informação a Edu Santos).

Então, chegamos ao seguinte quadro: o doce virtualmente poderia existir antes das campanhas do brigadeiro Gomes, pois já existia o leite condensado. Se existia, tinha outro nome. Mas uma outra data pode ser determinada para sabermos se o étimo é verdadeiro ou não. Se o brigadeiro a que se refere o étimo do doce é de fato Eduardo Gomes, o étimo que vincula o termo "brigadeiro" a essa figura histórica brasileira estará definitivamente errado se encontrarmos a palavra antes de 1941. A razão disso é óbvia: Eduardo Gomes não era brigadeiro antes dessa data.

Diz Popper que uma teoria só pode ser considerada científica se for refutável. Essa é uma forma bem clara de mostrar como um étimo vinculado a uma pessoa tão específica pode estar certo ou errado: se encontrarmos o termo "brigadeiro" antes de 1941, todas as histórias que o vinculam a Eduardo Gomes são falsas e deveriam ser abandonadas para sempre. Não é o que acontece no mundo da pseudoetimologia, que se fortalece com o apelo das historietas e não com a razão e com a comprovação.

Leite condensado
Mas se não encontrarmos, isso não torna automaticamente nenhuma das histórias necessariamente verdadeira, por mais divulgada que seja por meios de difusão importantes, como latas de leite condensado, livros de receita e páginas da internet. A hipótese tem alguma força, mas não é nem certa nem errada.

Centenas de milhares de palavras da língua portuguesa (e outras milhares de acepções) estão nesse mesmo estágio. Quando a Etimologia dialogará novamente com a História? Muitos historiadores acham "curiosidades" em seus textos pesquisados, as quais são verdadeiras preciosidades para eliminarmos hipóteses etimológicas absurdas. Mas falta diálogo entre a moribunda Etimologia científica e a História. Grassa o achismo, os palpiteiros imperam. E tudo que non è vero, ma bene trovato é considerado etimologia válida.

Não é. Só se for para conversas informais. É tão valido quanto as curas alternativas para a Medicina oficial. Nesse contexto, a situação dos testemunhos é precária.

Outro brigadeiro

Cartaz de campanha do brigadeiro Eduardo Gomes à Presidência da República em 1946
Uma pessoa que vivenciou a fabricação dos famosos docinhos da campanha do brigadeiro em 1950, por exemplo, se fosse adolescente na época, hoje estará com uns oitenta anos. Poderia confirmar isso (ou, antes de falecer, poderia ter contado aos filhos que confirmariam apoiados na inquestionável auctoritas dos pais), mas, por mais lúcida que seja tal pessoa, a memória humana prega peças, não só na transmissão oral, mas na recordação dos próprios fatos, sobretudo se forem assuntos não diretamente vinculados à sua vida.

Lembro-me de uma tia-avó que tinha memória fenomenal e sabia todos os aniversários dos parentes, mas que afirmava com certeza que o presidente americano assassinado tinha sido Nixon (e não Kennedy). O oral não substitui o documento escrito. Algo que vem depois, sobretudo uma explicação etimológica fantasiosa, costuma imiscuir-se no que veio antes e tudo junto se transmite oralmente. A necessidade etiológica humana é imensa. E entre a etiologia e a etimologia há muito mais que a simples falta de uma letra.

Mais estranho ainda é que a palavra não apareça em livros de receitas antes da década de 70 com facilidade. O Google Books, tão útil para desmascarar etimologias duvidosas, deu-me, com certeza, após longa pesquisa, a recente data de 1994 para a primeira abonação de "brigadeiro" como doce. O dicionário mais antigo em que encontrei a acepção foi a edição de 1971 do Novo Dicionário Brasileiro Ilustrado (São Paulo: Melhoramentos). Desconheço se, em edições mais antigas do mesmo dicionário, o termo apareça.

Isso nos faz pensar: seria outro brigadeiro o responsável pelo nome do doce, talvez do período militar entre 1964 e 1985? Ou seria de fato o brigadeiro Eduardo Gomes o motivador da denominação e algo das histórias veiculadas está correta, mas a comprovação é impossível porque a palavra só se transmitiu oralmente por vinte anos, até ser registrada pela primeira vez?

Livros de receita
Contra a hipótese de o termo ter surgido durante o regime militar do Brasil, Mathildes Miranda Nunes informa por telefone que o livro Sei Cozinhar (Belo Horizonte: Itatiaia, 1961) já traz receitas de brigadeiro. A pesquisadora Mariana Botta, da Unesp, informa que havia nas décadas de 40 e 50 uma página chamada "Cozinha doméstica" na revista A Cigarra. Estará lá a resposta? Aparentemente, o popular livro Dona Benta: comer bem não traz brigadeiros até década de 70.

A existência de muitos livros antigos com a receita do doce, mas sem datação, dificulta a pesquisa do étimo. Aparentemente, há receitas de brigadeiro num livro de 1956 (Jorge Fuede Japur. Quitutes de Dona Júlia: salgados, doces e sorvetes. São Paulo: Gráf. Ed. Prelúdio). Mas a pesquisa continua... Quem dá menos?

Só podemos nos aproximar das verdades, mas é fácil desmascararmos mentiras, quando nos valemos de método e de senso crítico. Convoco a todos a revirarem os livros de receitas de suas avós em casa e participarem dessa pesquisa. É divertido e importante para não sermos manipulados.

Mário Eduardo Viaro é professor de língua portuguesa na USP, autor de Por trás das palavras: manual de etimologia do português (Globo: 2004) e de Etimologia (Contexto: 2011)

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